Meu depoimento na Comissão de Educação e Cultura do Senado:
Muito bom dia a todos. Quero agradecer o convite da COMISSÃO DE EDUCAÇÃO , CULTURA E ESPORTE E DA SUBCOMISSÃO PERMANENTE DE CINEMA, TEATRO, MÚSICA E COMUNICAÇÃO SOCIAL. Dizer que tenho um enorme prazer de estar aqui ao lado da Tânia Farias, Roberto Nascimento, Nicete Bruno, Bianca de Fellipes e Paulo Pélico para debater o FAZER TEATRAL. E agradecer aos senadores CRISTOVAM BUARQUE , ROSALBA CIARLINI, JORGE DUQUE, MARISA SERRANO E AO SECRETÁRIO DA COMISSÃO JÚLIO LINHARES por abrirem este espaço para ouvir o que temos a dizer sobre a PRODUÇÃO TEATRAL no país.
Eu sou meio carioca meio brasiliense. Há dois anos voltei para Brasília, e hoje, não tenho o menor problema em dizer que juntamente com meus dois sócios, LUCIANO GIRADE e DEVA FERREIRA, somos os responsáveis pelas maiores produções realizadas no TEATRO NACIONAL DE BRASÍLIA, com o objetivo de colocar a Capital Federal novamente na rota dos espetáculos de sucesso de público e crítica do Eixo Rio-São Paulo, a preços acessíveis. E temos conseguido. Graças a várias parcerias. Nenhuma ainda através da LEI ROUANET.
Mas também, nosso objetivo é produzir em Brasília com artistas e técnicos de Brasília e levar a produção daqui para fora. E vamos começar, com um espetáculo trazendo no elenco dois atores da cidade formados por Dulcina de Moraes, na década de 80, ANDRÉ AMARO e FERNANDA PELOSI, numa adaptação do clássico de Ibsen, A DAMA DO MAR, com o qual fomos contemplados com R$ 12 mil no EDITAL DA CAIXA de 2007/2008.
Dito isso, eu gostaria de fazer uma retrospectiva, porque sou apaixonada por história. E porque sinto muito que nosso país, não guarde a sete chaves a nossa memória.
Desde 2004 a questão do Teatro Brasileiro vem sendo discutida no Senado. Em 2005 a classe teatral se mobilizou e entregou um documento a esta Comissão. Em 2007, o nosso companheiro de mesa hoje Paulo Pélico defendia aqui nesta comissão a necessidade de uma agência nacional, aos moldes da ANCINE, do cinema, para tratar especificamente do nosso TEATRO.
Finalmente, estamos debatendo um Projeto de lei que cria a Secretaria Nacional de Teatro e institui mecanismos de fomento para a atividade teatral.
Independente de qualquer discussão, uma coisa é clara: todos que estão aqui nesta mesa hoje defendem o TEATRO BRASILEIRO. Fazemos TEATRO. Respiramos TEATRO todos os dias de nossas vidas. Queremos que o fazer teatral seja mais confortável, pois não basta ser prazeroso. Tem que dar o sustento de nossas famílias e de todos os envolvidos numa produção.
Eu me sinto muito confortável em dizer que sou totalmente favorável a criação da SECRETARIA NACIONAL DE TEATRO, como um embrião da AGÊNCIA NACIONAL DE TEATRO.
A ausência de uma célula única para o teatro no Ministério da Cultura é uma regressão. O TEATRO já foi mais respeitado, mais bem tratado pelo Estado. Já tivemos o SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO, que foi encampado por um novo órgão o INSTITUTO NACIONAL DE ARTES CÊNICAS, que juntava o SERVIÇO NACIONAL DE DANÇA, o SERVIÇO NACIONAL DE ÕPERA e o SERVIÇO NACIONAL DE CIRCO. Até que tudo foi extinto e ficamos apenas com a FUNARTE , que hoje não representa a identidade de nenhuma das artes cênicas e menos ainda a do TEATRO BRASILEIRO.
Eu sou uma carioca bem brasiliense. Uma jornalista muito artista, pois nasci praticamente dentro de um teatro. Meu bisavô foi porteiro e depois administrador do Teatro João Caetano no Rio de Janeiro. Cresci assistindo os grandes atores representarem nos espetáculos hoje considerados mega-produções: MY FAIR LADY, HELLÔ DOLLY, O HOMEM DE LA MANCHA; GOTA D´ÁGUA. Vi Bibi Ferreira e Paulo Autran a primeira vez com 3 anos de idade. Aliás, com a mesma idade em que pisei no palco pela primeira vez, dirigida por uma educadora dona Elza Campos, dona de um coleginho que ousava montar espetáculos no palco do Clube Municipal da Tijuca, também no Rio de Janeiro.
Faço parte de uma geração que aprendeu Teatro no Colégio e na hora que gostou mesmo do negócio já estava fazendo há muito tempo, no Colégio. E foi aqui em Brasília, no Colégio Pré-Universitário que aprendi a produzir, a fazer teatro. PRODUÇÃO. Com Dimer Monteiro, Medinha, ao lado de grandes como Iara Piatricovsky, Geraldinho Vieira, Guilherme Reis, no Teatro do CARMO, na 912 Sul.
Com esta bagagem voltei ao Rio onde fiz o início da Faculdade de Comunicação na UFRJ e acompanhei de perto a regulamentação da profissão de artista, quando uma das mais importantes pessoas da minha vida, a atriz VANDA LACERDA, uma tia que ganhei de presente de uma amiga de faculdade e com quem eu morei, batalhou dentro deste Congresso Nacional para tornar legítimo o direito do trabalhador de teatro. E só conseguiu fazê-lo através da união da categoria, de todos, sem distinção entre amadores ou profissionais. Todos estavam nesta luta, BIBI, DULCINA, NICETE, PAULO GOULART, TONIA, LÉLIA ABRAMO, OTHON BASTOS, os amadores de Pernambuco e Curitiba. Quem vivia de teatro passava a ser profissional de teatro. Mas se quisesse continuar amador, podia continuar sendo.
Uma coisa não excluía a outra, como lembrou bem na última audiência publica desta Comissão, a querida Irene Ravache.
E nessa história toda, terminei a Faculdade de Comunicação em Brasília, no CEUB, virei Jornalista, e editora do Segundo Caderno do Correio Braziliense, onde acompanhei muito de perto e ativamente a história política do teatro brasileiro e suas lutas aqui em Brasília. Mas não foi só o chamado teatrão do eixo-Rio–São Paulo que teve espaço garantido na imprensa naquela época. Briguei, junto com muitos da cidade, por um teatro candango. O saudoso Ary Pararraios, nosso mestre B. de Paiva, aqui presente, o genial Hugo Rodas, o louco Pingo; Fernandão; Fernando Guimarães, Ricardo Torres, Miquéias Paz e sua mímica que virou uma logomarca nacional das Diretas Já, Alexandre Ribondi, João Antônio, Humberto Pedrancini, Murilo Echart, Aluísio Batata, André Amaro; a maravilhosa Dulcina de Moraes. Todos, centenas de artistas verdadeiramente brasilienses, porque deram seu suor para fazer nascer o TEATRO com a cara da CAPITAL FEDERAL. Todos brigaram por este TEATRO, que tinha um espaço, e agora está reduzindo.
Quantas salas acabaram aqui: ALUISIO BATATA e ALUÍSIO MAGALHÃES, no Centro de Convenções. O TEATRO DA ABO; O GALPÃO e O GALPÃOZINHO; todos fechados. O TEATRO NACIONAL SALA VILLA-LOBOS E MARTINS PENNA, ambos sendo deteriorados. O DULCINA acabando.
Apesar dos pesares, BRASÍLIA está no mapa na produção TEATRAL e é beneficiada em EDITAIS DA PETROBRÁS, DA CAIXA, DA ELETROBRÁS, DO BANCO DO BRASIL, porque tem história e bons trabalhos, olhem o CENA CONTEMPORÂNEA, do Guilherme Reis, fazendo 20 anos!!! O TEATRO CANDANGO começa a ter algum incentivo através da LEI ROUANET e coloca no mapa grupos como OS MELHORES DO MUNDO; o G7; os IRMÃOS GUIMARÃES, e o maravilhoso HUGO RODAS.
A LEI ROUANET não é a melhor do mundo, mas como dizia uma de suas criadoras, outra grande educadora e amiga do TEATRO BRASILEIRO, nossa saudosa PROFESSORA ICILDA RAMOS, é o que podemos fazer para garantir o pouco que a ARTE merece.
É muito louco, porque estamos aqui brigando para garantir migalhas. O incentivo fiscal destinado ao TEATRO BRASILEIRO representa nada em relação aos outros incentivos fiscais que são distribuídos pelo País. E não pensem se abrirmos mão desse incentivo, desta migalha, não vão aparecer outros produtores querendo e lutando de verdade por isso. O que nos difere dos produtores de tecido, de componentes de informática; de soja? Também plantamos sonhos, plantamos a “ vida do país, a identidade, o afeto” , como bem falou nosso queridíssimo Amir Haddad na última audiência pública aqui nesta comissão em final de abril. Nós plantamos mais do que papel–jornal, que recebe um dos maiores incentivos fiscais do país. Porque o TEATRO BRASILEIRO não pode ser beneficiado com isso, sem ter culpa? Porque essa culpa de quem faz TEATRO tem que ser miserável. Viver com pires pedindo sempre, começando sempre, a cada nova produção?
Porque essa discussão de que o investimento é maior no Sul e no Sudeste?
Porque é obvio, a produção é maior nessas regiões. Qualquer mapa ou gráfico que explique a distribuição dos benefícios fiscais de determinada atividade, vai privilegiar as regiões onde a produção é maior.
Então, amigos, temos de somar. Juntar as forças. Garantir mecanismos para todos que fazem TEATRO NO PAÍS. Os amadores e produtores não benecifiados hoje, que não dispõem de estrutura para buscar os incentivos da LEI ROUANET, ou que não são contemplados por empresas da sua região, têm de ser incentivados pelo próprio Ministério, através do FUNDO DE CULTURA.
O problema hoje é de gestão.
E nada melhor que as decisões do TEATRO BRASILEIRO fiquem nas mãos de um colegiado escolhido pela categoria, com produtores de todas as regiões, representantes de todos os tipos de TEATRO.
Por isso, mais uma vez, reafirmo que sou favorável a criação de uma SECRETARIA NACIONAL DE TEATRO, que represente todos nós, que tenha a cara do TEATRO BRASILEIRO com toda a sua multiplicidade, com todas as suas máscaras.
E que o TEATRO volte a ser o grande parceiro da EDUCAÇÃO. Que seja o CONTADOR da nossa HISTÓRIA. Resgate a nossa MEMÓRIA. Só assim formaremos platéia
Obrigada.
Brasília, 28 de maio de 2008






Comentários